To Isabelle: lugares

  • Uma vez na ilha de Santiago fiquei impressionado ao ver culturas (e tentativas de culturas) em lugares muito inóspitos, praticamente sem condições. Perguntei ao cabo-verdiano que estava comigo porque é que havia quem cultivasse e vivesse naquele lugar. A resposta foi simples: "É o seu pedaço de chão; não têm outro".
    Quanto à força ou resistência que referes, deixo-te as palavras do poeta cabo-verdiano Ovídio Martins:

    <b>Flagelados do Vento-Leste</b>

    Nós somos os flagelados do Vento-Leste!
    A nosso favor
    não houve campanhas de solidariedade
    não se abriram os lares para nos abrigar
    e não houve braços estendidos fraternamente para nós
    Somos os flagelados do Vento-Leste!
    O mar transmitiu-nos a sua perseverança
    Aprendemos com o vento o bailar na desgraça
    As cabras ensinaram-nos a comer pedras para não perecermos
    Somos os flagelados do Vento-Leste!
    Morremos e ressuscitamos todos os anos
    para desespero dos que nos impedem a caminhada
    Teimosamente continuamos de pé
    num desafio aos deuses e aos homens
    E as estiagens já não nos metem medo
    porque descobrimos a origem das coisas
    (quando pudermos!...)
    Somos os flagelados do Vento-Leste!
    Os homens esqueceram-se de nos chamar irmãos
    E as vozes solidárias que temos sempre escutado
    São apenas
    as vozes do mar
    que nos salgou o sangue
    as vozes do vento
    que nos entranhou o ritmo do equilíbrio
    e as vozes das nossas montanhas
    estranha e silenciosamente musicais
    Nós somos os flagelados do Vento-Leste!
  • Re: To Isabelle: lugares
    Que belo poema, Francisco! Muito obrigada por me apresentar à obra e ao autor, que merece ser melhor conhecido.

    Tenho cá comigo que as pessoas que, por uma razão ou outra, acabam vivendo em lugares assim são forjadas com materiais outros que aquelas que tem conforto...
    Depois elaboro melhor e volto a esse assunto.

    Um grande abraço e ótima semana a você!